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Intransit, Naná Blue, Madri, ES, 2017

Intransit - Modos de Hacer y de Encontrase
O que nos diz a água?
Ação Pedagógica Performativa
Centro de Arte Complutense, Museo del Traje e Parque del Oeste, Madri, 2017

A Ação Pedagógica Performativa “O quê nos diz a água?” surge no contexto do evento Intransit – Modos de Hacer y de Encontrarse (Em Trânsito – Modos de Fazer e de Encontra-se) em Madrid entre 17 e 19 de outubro de 2017, no Centro de Arte Complutense. Intransit é uma plataforma de educação experimental, promovida pela Universidade Complutense de Madri com o apoio da Promoção de Arte - Ministério da Educação, Cultura e Esporte.

Desde sus inicios, el eje central de las diferentes actividades que la plataforma ha llevado a cabo ha sido el laboratorio intransit, un evento con formato de encuentro en el cual los participantes viven una experiencia intensiva e inmersiva y que se articulaba a través de un programa de mediación con agentes y actores del ámbito de la creación y la investigación cultural.” (http://intransit.es/concepto/)

Dentro da Plataforma Intransit foi realizado o workshop Modos de Hacer y de Encontrarse. Segundo sua coordenadora, Muriel Andreu, o workshop é proposto como um laboratório experimental de criação e pensamento. Um espaço horizontal aberto a discussão e diálogo entre vários artistas convidados nacionais e internacionais e participantes. O workshop é aberto a qualquer pessoa interessada em produção artística colaborativa, a fim de criar redes e encontros produtivos entre todos.

A proposta partiu de indagações como: Em que momento o espaço público deixou de pertencer a eles e em que ponto um espaço deixa de ser público para ser privado? Como você pode interagir com esse espaço, lugar de encontro e reunião, e com as pessoas que estão lá, procurando alternativas para o espaço convencional de passagem, para lugares de trânsito? Muriel Andreu formulou a proposta como um chamado à criação, para unir forças para recuperar espaços públicos e modificá-los, torná-los nossos já que nossos são e construir algo juntos. Observar a relação entre nós, os artistas e o espaço que nos rodeia.

Atendendo às premissas do convite brota a experiência pedagógica experimental performativa “O quê nos diz a água?”. O evento envolveu exposição de investigação artística, reflexão teórica e ação performativa a partir da vivencia de contemplação diferenciada da água no espaço público. 

 

Num primeiro momento, no Centro de Arte Complutense, sede do evento, uma apresentação do Projeto Água Viva, seus conceitos e motivações através de explanação teórica intercalada com visualizações de obras realizadas em seu desenvolvimento até então, traçando uma relação entre teoria e prática.

Dadas as informações e articuladas com as obras apresentadas através de vídeos e fotografias realizadas durante o desenvolvimento do projeto, se propõe aos participantes da ação pedagógica, um segundo momento a partir de tais informações impregnadas no corpo, uma intervenção-performance no Parque Del Oeste afim de conectar o conhecimento recém adquirido à uma prática experimental de tal conteúdo, intitulada “O quê nos diz a água?” A reflexão sobre os conceitos e o entendimento sobre o projeto são premissas para a intervenção. Nesse caso, existe uma linha que parte da teoria para a pratica.

O caráter performativo da ação pedagógica começa na proposição do uso de roupas azuis por parte dos participantes para criar uma conexão entre todos através do azul, considerado a cor das águas. Desse modo cria-se um corpo coletivo, uma massa de água humana que compõe um desenho no espaço.

Uma indicação era que ao fazer esse exercício, os participantes também pudessem deixar que essa água limpasse o seu corpo, já que somos 80% de água. Vistas estas questão relacionas a água do corpo anteriormente no Centro de Arte Complutense, os participantes foram para a experiência com essas informações ativadas no corpo: nós somos corpo/água e vamos entrar em contato com um outro corpo d’água... e como se dá essa relação? E esse corpo d’água está nesse ambiente, que é um ambiente vivo, arborizado, então ele trás em si essa energia, que é uma energia curativa, uma energia da natureza, e a partir dela, quando se entra nessa conexão, se pode também estar fazendo uma transmutação da energia do nosso corpo através da mimetização com o ambiente, deixa-se ser, deixar que a água entre em você a partir dessa meditação, desse direcionamento, dessa relação.

 

“Espinosa define un cuerpo de dos maneras simultaneas. De un lado, un cuerpo por menor que sea, siempre comporta una infinidad de partículas: son las relaciones de reposo y de movimiento, de variaciones de velocidad entre partículas que definen un cuerpo. De otro lado, un cuerpo afecta otros cuerpos o es afectado por otros cuerpos: es este poder de afectar y ser afectado que también define un cuerpo en su individualidad”.(DELEUZE, Gilles, Espinosa e Nós, in Espinosa: Filosofia Prática, Editora Escura, São Paulo, 2002, P. 128.)

 

A ideia consiste em fazer uma intervenção no Parque del Oeste onde se trabalha a percepção ampliada da água desse espaço. O Parque del Oeste fica na extremidade da cidade de Madrid, tem um pequeno lago e um caminho de água, um córrego artificial, construído pelo ser humano, ou seja, é intervenção do homem na natureza.

Proposição I
 

No primeiro momento, os participantes se dispuseram ao redor do lago em uma experiência de contemplação coletiva e meditação que formou um conjunto perceptível em relação ao lago e uma composição intuitiva formando um desenho no espaço através do azul que conectava a todos. A atenção dada de forma coletiva ao lago forma um campo de força que intensifica a experiência e chama a atenção dos transeuntes.

Proposição II
 

Num segundo momento foi proposto aos participantes que se dispusessem ao longo do caminho de água, cada um em um lugar onde pudesse ter o seu momento tranquilamente e nessa sequência vai se formando uma linha pelo espaço, vendo de um angulo ampliado. Cada participante uma vez vestido de azul, ativa uma conexão entre ambos pela cor, formando uma massa de água humana, fazendo uma linha acompanhando essa passagem de água pelo parque onde desde uma perspectiva fechada não se pode observar, porém se ampliamos a perspectiva, sim.

Por exemplo as pessoas que estão passando no parque passam pelo caminho que existe ao longo do córrego de água e ao começar o caminho veem uma pessoa de azul olhando para água... segue o caminho e mais na frente encontra outra pessoa de azul também olhando para água, fazendo essa meditação... segue adiante e outra vez uma outra pessoa, e assim, éramos 6 pessoas ocupando esse espaço de uma forma ampliada, fazendo um conjunto, uma linha azul no caminho ao lado do córrego de água. Essa e uma forma de ocupar o espaço, de fazer um desenho no espaço com o corpo.

Partindo do conceito de água viva do dr. Masaru Emoto, que vai dizer que a água está viva e tem algo a dizer, então a proposta trata de uma observação da água desse espaço, no caso um lago, num primeiro momento, e um córrego num segundo momento da intervenção. Em ambos casos, ao redor do lago e ao longo do córrego, a proposta visa uma atenção direcionada dada ao elemento água com o intuito de entrar em conexão com este a partir da meditação ocasionada pela atenção diferenciada.

Em seu texto “Sobre la atención” no livro “Arte y Cotidianidad – Hacia la transformación de la vida en arte”, Bartolomé Ferrando vai diferenciar a experiência da atenção ‘comum’ da atenção focalizada intencionalmente em um objeto ou situação específica. Esta última ganharia um novo status a partir da relevância concedida conscientemente. E esta relevância concedida, de certa forma, seria devolvida ao observador numa experiência de cumplicidade desvelada pela conexão entre ambos.

 

Desde nuestros ojos y oídos, podríamos hablar de dos modos de observar las cosas. Cabría diferenciar el hecho de concentrar la mirada o la escucha en un sujeto o en un objeto concreto, del de ese otro modo de mirar o escuchar lo que ocurre ausente de intención alguna y carente de objetivo. En ambos casos interviene la atención. En el primero, el sujeto u objeto mirado o escuchado, por el mero hecho de ser mirado o escuchado, cobra valor, se agranda, se intensifica, e incluso cambia de rumbo a veces. Por otra parte, la importancia que les damos se nos devuelve parcialmente, como se sucediera que el sujeto o el objeto reflejaran nuestra atención y nos volviera a regalar la intensidad que antes le habíamos concedido.” (FERRANDO, B., p.72, 2012)

 

A ideia é ampliar a consciência, ampliar a forma de percepção para que haja realmente um entendimento maior, um outro olhar, uma descoberta, o que nos diz a água? Ela está aí, ela é viva, ela tem memória e poder. O que essa água nos diz? Para cada um ela vai dizer algo diferente porque cada um vai ver a partir do seu ponto de vista, da sua sensibilidade e do seu momento atual no ato da experiência.

 

Concibo la conciencia como una mirada interna. Como una “actividad cerebral y emotiva en función directa, eléctrica”, como escribe Mario Merz, a través de la que alcanzo cierta compresión y conocimiento tanto de mi mismo como del hecho, situación o entorno en el que me encuentro. Y este conocimiento implica la creación de cierta unidad interna de mi mismo, y de relación entre mi mismo y el entorno...” (FERRANDO, B., p.79, 2012)

Então, por exemplo, um dos participantes que é músico, entrou num estado de meditação a tal ponto que ouviu a música da água, ele pensou: “Será que eu estou ficando louco? Ou eu estou ouvindo mesmo?” Ele ouviu uma música, a água tem a sua sonoridade, o seu correr tem uma música, e ele como músico identificou a música daquela água. Já John Cage em sua compreensão alargada da música, no intuito de desfazer as fronteiras entre arte e vida, ideias levantadas pela arte sonora futurista, ao fazer uma critica à estrutura da música clássica, admitindo todo ruído como som passível de música, vai apontar que a música, uma vez livre da estrutura aprisionaste do som, englobará a vida como tal de modo que dependeria mais do nosso ouvido para ser identificada.

Los sonidos y ruidos deberían escucharse allí donde se encuentren, en su espacio natural. En eso consistía para él el arte de la música. Dependería pues exclusivamente de nosotros, de nuestra permisividad y atención auditiva, el hecho de que el mundo de los sonidos se transformara en arte, operara de forma artística, y nos mostrara el entorno que nos rodea como una verdadera obra de arte en continua transformación. “Si nos aviniéramos a dejar de lado todo lo que se intitula música -observa Cage-, la vida entera se transformaría en música”.” (FERRANDO, B., p.30, 2012)

Outra participante achou por bem entrar em contato direto com a água colocando seus pés no lago. Através do tato diferenciado e atencioso um momento de entrega, uma relação intimista se instaura nessa vivência intensificada da água do espaço. Isso se dá graças a um estado predisposto de experimentação efetivando novas possibilidades de interação com o espaço público. Sua atitude aponta uma subjetividade diferenciada àqueles que por ali passam, ampliando dessa forma a consciência não só individual, como também coletiva.

 

Y aunque me he referido aquí a los sentidos de la vista y del oído, por ser los más utilizados, quiero también considerar e incluir aquí tanto la atención táctil como la olfativa y gustativa demasiado olvidadas y no menos sugerentes para así, finalmente considerar, groso modo, dos modos de atención diferentes, referidos a los cinco sentidos, que irán siempre acompañados uno y otro de actitudes y comportamientos no sólo distintos sino muy distantes entre sí.” (FERRANDO, B., p.73, 2012)

O ato de observar a água onde ela se encontra predispõe um corpo outro que foge do cotidiano para apreender, paradoxalmente, o extraordinário do próprio cotidiano. Como se nos distanciássemos do cotidiano para intensifica-lo! Trata-se então da criação de um outro cotidiano. A apreensão do cotidiano para vivência outra a partir de novas possibilidades. Uma intervenção muito sutil, onde a ideia é essa relação mesmo com o espaço, esse estar de forma diferenciada, este dedicar-se a focar na água levando em consideração o tempo. O tempo é essencial para que a experiência aconteça. É preciso dedicar-se um determinado tempo naquela experiência, ou seja, para que se possa conseguir escutar/sentir de fato a água, é preciso permanecer no tempo. Existe um tempo necessário para que esta experiência se dê. Tal experiência se traduz num reconhecimento da água enquanto vida, enquanto potência transformadora que está ali a nosso alcance uma vez que abramos a percepção para uma real comunicação com ela, que é, nada mais nada menos que um ser vivo, assim como nós!

Naná Blue

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